Saionara, a moça do capô

Contos do ônibus

80. O delegado

Hoje o motorista do ônibus me apresentou a um passageiro. Um delegado. Coroa. O piloto do 318 deve achar que sou ou estou carente. Ou que gosto de velho. Ou polícia. O delegado foi gentil. 
-  Rubem. Muito prazer – disse. 
Ardiloso, discretamente conferiu as minhas pernas malhadas. Da próxima vez, em vez das pernas, mostro as unhas.

79. Olho Gordo

No Salão de Beleza do Parque das Rosas a inveja púrpura das clientes a arrancar-lhe o olho verde com as já feitas unhas perfeitas.

78. Compra Coletiva

Sentada na capa do motor, fala com o motorista mais que o indispensável.

Sabe o Dunas? Com essa chuva, trânsito ferrado na Avenida das Américas, o 318 parado bem em frente ao luminoso do motel mais famoso da Barra. D-U-N-A-S. Bem que eu pensei; “o ônibus poderia entrar aqui, por que não?”. À recepcionista o senhor diria que os passageiros reservaram todos os quartos pelo Groupon.

77. Cinderela de Jorge

Sentada na capa do motor, fala com o motorista mais que o indispensável.


”- Todo fim de tarde aqui em São Conrado é essa fila parada, interminável. Qualquer dia, perco a paciência no meio desse engarrafamento dos infernos e peço uma carona a São Jorge. Esse aí que, do painel, protege os passageiros. Desço bem antes do meu ponto e chego mais cedo no morro, salva e feliz. Princesa da Rocinha, chego distribuindo beijos, sentada na garupa do cavalo branco. “

76. Papo de Amante

Sentada na capa do motor, fala com o motorista mais que o indispensável.


Outro dia no Salão do Parque das Rosas, um susto: uma cliente quase gêmea minha, só que mais bonita. Roupa de marca & tal, sentou pra fazer as unhas. A palma da mão uma lixa zero: grossa, grossa, grossa. A minha, uma seda. Na hora acusou o golpe. Contou que lavou muito prato na vida & tal. Papo de amante. Hoje em dia - disse - tenho um senhor que me ajuda. Mas exige. Ralo de montão na academia e como só salada. Qualquer dia, encho o saco, dou um pé no velho. Postei no Facebook: “se engana quem pensa que o sonho das mulheres é achar uma porra de um príncipe encantado. O que as mulheres querem é comer sem engordar.”

75. Domingo no Parque

Sentada na capa do motor, fala com o motorista mais que o indispensável.

“…E lá fui eu, toda vestida de Saara, da pulseira ao brinco, do relógio dourado à piranha de cabelo, arrasar numa excursão às Lojas Americanas.”

74. Easter Egg

Sentada na capa do motor, fala com o motorista mais que o indispensável.

“Ou paro com os chocolates das Americanas ou derrapam os pneuzinhos sob a mini blusa.”

73. U-Boat

No Salão de Beleza do Parque das Rosas, sob a basta cabeleira loura-de-farmácia, a cachorra de seda lambe os beiços e afia as unhas como nos melhores canis. Mas um bife arrancado e um torpedo mal disparado comprometem a balada noturna, pondo a pique toda e qualquer intenção de vastos diálogos via blackberry.

72. Memórias sentimentais.

No Salão de Beleza do Parque das Rosas, a cachorra de seda afia as unhas como nos melhores canis. Trava com algum príncipe sem sorte um vasto diálogo oswaldiano via blackberry.

— lindas as minhas unhas. olha, ninguém faz esta meia lua como Saionara… mas como estás mudo… sem espírito … 
— comovido porque te conquistei…
— não. não é uma conquista…
— que é então? 
— uma revanche… 
— de quê?
— da vida.

71. Alicate.

No Salão de Beleza do Parque das Rosas a inveja púrpura das clientes a arrancar-lhe o olho verde com as já feitas unhas perfeitas.